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O acidente da usina nuclear de Chernobyl aconteceu em 1986, iniciando-se em abril do
referido ano. Este acidente foi um acidente nuclear de incomensurável dimensão, gerando
conseqüências irreparáveis, resultando, primeiramente, na retirada de aproximadamente
120 mil indivíduos de uma região correspondente a uma zona de trinta quilômetros ao
redor da usina.
Chernobyl localiza-se na região nordeste da Ucrânia, aproximadamente a 90 quilômetros
ao norte de Kiev. Quando ocorreu o acidente, uma zona de 30 quilômetros que cerca a usina
foi evacuada permanentemente, embora os reatores não danificados ainda estivessem em
funcionamento. Esta zona evacuada compreendeu diversos vilarejos e incluiu a cidade de
Pripyat, construída com a finalidade de ser a moradia dos trabalhadores da usina e suas
famílias. Muitos indivíduos que foram obrigados a deixar Pripyat, se mudaram para Kiev,
fazendo desta, sua moradia provisória que, com o decorrer dos anos, tornou-se a moradia
definitiva destas pessoas.
Os impactos secundários do acidente radioativo incluíram: evacuação desordenada da
região; aumento pronunciado do número de abortos; dificuldade na obtenção de
documentos que permitissem a retirada dos indivíduos que viviam nas cidades próximas à
usina e nas cidades vizinhas (área de contaminação radioativa) e a sua aceitação em
outras regiões; conflitos entre as pessoas acerca dos subsídios do governo e dos
alojamentos; discriminação dos indivíduos, sendo disseminado o sentimento de medo,
denominado de "radiofobia" (medo da radiação); por fim, os cuidados médicos
prestados à população eram insuficientes e inadequados.
Assim como outros desastres tóxicos e radiativos, o acidente em Chernobyl proporcionou a
criação de uma subpopulação que vive ameaçada, seja por doenças ou discriminação.
Uma das conseqüências estabelecidas pelo acidente da usina nuclear foi o aumento
progressivo dos casos de câncer da glândula tireóide em indivíduos jovens,
particularmente em crianças, desde as que ainda estavam intra-útero até dois anos de
idade, na época do acidente.
Um estudo realizado em 1997 e publicado na revista Arch Gen Psychiatry, concluiu que, dada
à experiência estressante vivida pelas famílias que foram retiradas da área acometida,
pequena diferença na saúde e bem-estar psicológico entre as crianças foi encontrada no
estudo.
Este foi o primeiro estudo epidemiológico acerca da saúde e bem-estar psicológico das
crianças após o acidente da usina nuclear de Chernobyl. Representou uma colaboração
entre cientistas independentes de Kiev e uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos.
Anteriormente, os estudos visavam a verificação das conseqüências causadas pela
radioatividade sobre os adultos. Estudos sobre o acidente de Hiroshima e de Nagasaki
concluíram os efeitos sobre a saúde das pessoas, a ansiedade e somatização gerada,
além disso, os efeitos sobre o estado psicológico dos indivíduos, o aumento do número
de casos de depressão em um período de dez a vinte anos após o acidente.
Os estudiosos, raramente, têm realizado trabalhos com o objetivo de pesquisar os efeitos
do desastre de Chernobyl sobre as crianças, sejam eles psicológicos ou tecnológicos.
Neste estudo, os pesquisadores promoveram uma avaliação das conseqüências do desastre
nuclear ocorrido em Chernobyl. Verificaram, especificamente, os efeitos deste acidente
sobre as crianças que foram evacuadas da zona de alta contaminação, localizada nas
redondezas da usina, sendo removidas para Kiev.
Os pesquisadores objetivaram a determinação da saúde e bem-estar das crianças que
foram retiradas das proximidades da usina, de regiões contaminadas, indo para Kiev, em
relação à saúde e bem-estar das crianças que não entraram em contato com a
radiação, que habitam e estudam em Kiev.
Foram avaliadas 600 crianças, sendo trezentas crianças, com idade variando entre dez a
doze anos. As crianças foram estudadas decorridos onze anos do desastre nuclear e, na
época do acidente, ou estavam sendo geradas por suas mães, ou eram bebês. Residiam em
regiões próximas a Chernobyl e, na época do estudo, residiam em Kiev. Estas compreendem
o grupo das crianças denominadas no estudo de "evacuees" (evacuadas). As outras trezentas
crianças deste estudo são crianças que nunca viveram em uma área contaminada por
radiação nuclear, que compreendem o grupo das crianças "classmates" (colegas de aula).
Os dados obtidos foram respondidos pelas crianças, pelas mães e professores, usando um
padrão de respostas que avalia o bem-estar, a saúde e o risco de doenças psicológicas
(psicopatologias) da infância. Foram realizados, também, exames clínicos e exames de
sangue nas crianças estudadas.
Os pesquisadores verificaram que, onze anos após o desastre nuclear, as crianças que
eram bebês quando houve a explosão permaneceram com sua saúde similar à saúde de seus
colegas de classe. Embora os achados dos exames clínicos e laboratoriais realizados nos
dois grupos de crianças estudadas fossem semelhantes, as mães das crianças que foram
retiradas da zona de perigo (radiação), relataram que estas crianças apresentaram mais
sintomas somáticos. O estresse de Chernobyl foi relacionado significativamente a estas
percepções das mães dos pacientes.
Resultados
No presente estudo, verificou-se que os dois grupos de crianças participantes da
pesquisa se mostraram concordante em relação à sua saúde mental, exceto pelos sintomas
como a ansiedade gerada pela contaminação causada pelo acidente nuclear. A avaliação
dos dados respondidos pelas mães dos pacientes evidenciou uma preocupação em relação
ao seu comportamento e bem-estar, em relação às crianças que não tiveram nenhum
contato com a radiação, seja direta ou indiretamente. Os fatores de risco mais
freqüentemente observados foram diretamente relacionados à radiação liberada pela
usina como, principalmente, a ansiedade.
Ainda, as crianças que entraram em contato, direto ou não com a radiação, segundo os
estudiosos, possuem alguns fatores de proteção à sua saúde. O trauma vivenciado pelas
mães foi refletido no bem-estar das crianças, particularmente, sintomas somáticos,
porém, sem maiores conseqüências.
Este estudo apresentou diversas limitações. Os estudiosos não determinaram o risco de
exposição real à radiação, devido à dificuldade de estimar a dose de radiação
liberada no acidente. Os dados foram obtidos após onze anos do desastre, não havendo a
clareza em se definir se as diferenças existiram antes do desastre ou se os efeitos
emergirão com o envelhecimento destas crianças. As famílias residentes em Kiev não
eram representativas de todos os indivíduos que residiam em uma zona de 30 quilômetros
da usina de Chernobyl, sendo feita uma estimativa neste estudo. A catástrofe de Chernobyl
desencadeou uma série de experiências aterrorizantes durante a evacuação da área
afetada, como conflitos para a obtenção de documentos para residirem em Kiev e para
obtenção de benefícios do governo; estigma social (discriminação); perda
irreversível da moradia, dos pertences e do estilo de vida. Finalmente, como este foi um
estudo pioneiro em Kiev, os pesquisadores tiveram dificuldades devido à falta de
experiência em estudos epidemiológicos na referida região.
Os pesquisadores concluíram, apesar das limitações deste estudo que, embora a
radiação e o poder nuclear, possam despertar o medo e a ansiedade profunda, sobretudo em
adultos, depois de decorridos onze anos do acidente nuclear de Chernobyl, o trauma não
foi transmitido às crianças, quando suas famílias foram acometidas pela contaminação
e tiveram que sair das áreas afetadas, indo para Kiev.
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