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Neste Artigo:
- O que é a Audição
- O que é a Fala?
- Problema de Audição, Problema de Fala
- Cuidados e Tratamentos
- O Fator Humano e o Fator Legal
- Curiosidades
"O surdo-mudo vive em um mundo à parte. Essa é uma crença muito disseminada
entre as pessoas, que ignoram o quanto pode ser criativo e produtivo um indivíduo com
problemas de surdez e de fala. O desenvolvimento, a recuperação, ainda que parcial, e a
integração dessas pessoas na sociedade é dever de todos nós. Para isso, é importante
conhecer alguma coisa sobre a fala e a audição, os cuidados, os tratamentos. É muito
importante também conhecer casos em que pessoas surdas-mudas são declaradas incapazes,
quando na verdade elas podem decidir por si mesmas e têm direito de fazer escolhas em sua
vida. A título de proteger, muitas vezes os direitos da pessoa deficiente são invadidos.
Esses aspectos são abordados aqui, com uma ressalva: além das técnicas modernas de
tratamento, o que faz desenvolver mais rapidamente um surdo-mudo é o respeito por sua
pessoa, o reconhecimento de sua cidadania e principalmente o carinho daqueles que o
cercam, tanto pessoal quanto profissionalmente".
O que é a Audição
Audição, segundo a fonoaudióloga Suely de Miranda Gomes, Fonoaudióloga,
Especialista em Voz no Rio de Janeiro, é uma modalidade sensorial dominante, isto é, um
sentido especializado em perceber os sons. Na espécie humana, os receptores da audição
se localizam no ouvido interno. É através da audição que a pessoa tem a possibilidade
de vir a desenvolver a habilidade da fala.
Ouvido
O ouvido, órgão fundamental para a audição, é encontrado em todos os animais
vertebrados. Ele é o responsável não apenas pela audição, mas também pelo
equilíbrio do corpo, explica a Dra. Suely. Para saber por onde os sons passam até
chegarem aos ouvidos internos, é preciso conhecer as três partes de que ele é formado,
que são: ouvido externo, que compreende a orelha, o canal auditivo e o tímpano; ouvido
médio, que compreende pequeninos ossos chamados martelo, estribo e bigorna; e ouvido
interno, que inclui cóclea (onde se dá a captação dos sons), sáculo, utrículo e
canais semicirculares, e se localiza no osso temporal do crânio. O ouvido médio ainda
tem comunicação com a faringe por meio de um canal flexível, que é denominado trompa
de Eustáquio.
Toda essa engrenagem dentro do corpo humano está a serviço de perceber os movimentos,
perceber a força da gravidade e da capacidade de ouvir os sons.
O que é a Fala?
A fala é a capacidade do ser humano de emitir sons inteligíveis, combinando letras e
formando palavras, adquirindo assim uma linguagem que sempre é a mesma de seu lugar de
origem ou dos pais. Uma criança aprende a falar, ouvindo os sons, associando com o objeto
apontado e repetindo. Ela aprende, portanto, basicamente por imitação. A fala pode ser
mais tarde aprimorada por meio do estudo e também com assistência fonoaudiológica,
quando o caso requer ou quando a pessoa quer aperfeiçoar esta habilidade para fins
profissionais. A partir da combinação de sua capacidade auditiva com a fala, ela pode
desenvolver então a comunicação escrita, estende-se a fonoaudióloga, que estabelece
como normal quando, em torno de um ano e três meses, a criança fala algumas palavras.
No segundo ano de vida, define a Dra. Suely, ela já deve possuir um vocabulário de 10 a
20 palavras e já combina as palavras em frases e sentenças curtas. Aos três anos, a
criança pode possuir um vocabulário de mais ou menos mil palavras. Aos quatro, ela é
capaz de reproduzir estórias.
Problema de Audição, Problema de Fala
Os problemas de audição que ocorrem a partir do nascimento podem ser detectados
desde cedo. Se corrigidos em tempo, podem dar à criança a oportunidade de falar. Caso o
problema perdure sem tratamento ou intervenção, a criança demorará mais a adquirir a
fala, mas ainda assim poderá fazê-lo com ajuda de profissionais de fonoaudiologia, diz a
especialista em voz.
A mudez se verifica na maioria dos casos em decorrência à surdez não tratada ou total,
desde os primeiros anos de vida. Quando a surdez acontece por trauma ou acidente ou quando
se verifica uma surdez temporária, em que a fala já se desenvolveu, esta última não
será afetada. Pessoas que não sofrem de surdez, diante de um acontecimento
emocionalmente traumático, podem ficar mudas, em geral temporariamente, para depois
voltarem a falar como antes. Há casos de pessoas que tiveram derrame ou traumatismo
craniano e têm dificuldade na comunicação em falar ou ler.
Espera-se que, até os quatro anos, a criança já domine a maioria dos fonemas (letras)
da língua do lugar onde vive, determina a fonoaudióloga. No entanto, antes mesmo dessa
idade, a mãe já pode perceber se o que seu filho fala está sendo compreendido por
outras pessoas, se ele está desenvolvendo a sua maneira de falar. Estas observações
são muito importantes, uma vez que elas podem ajudar a prevenir e diagnosticar desde cedo
muitas patologias que podem interferir no desenvolvimento escolar e social da criança.
Assim, por exemplo, se a criança ainda se comunica apontando, necessita de intervenção
fonoaudiológica.
É muito importante frisar que todo bebê de risco necessita de avaliação auditiva,
alerta a especialista.
Cuidados e Tratamentos
Quando recém-nascidos apresentam dificuldade de mamar (dificuldade de sucção), é
imprescindível um trabalho especial para estimular e orientar essas crianças, para
minimizar o mais possível o atraso no desenvolvimento de seus primeiros anos de vida,
segundo dados da assessoria de imprensa da Unicamp – Faculdade de Medicina.
A prática que os fonoaudiólogos chamam de estimulação essencial é toda atividade que
favorece e enriquece o desenvolvimento físico, mental e social da criança de 0 a 3 anos
de idade, portadora ou não de necessidades especiais.
Problemas de rouquidão ou aperfeiçoamento da voz podem ocorrer com pessoas de fala
normal. Com o passar do tempo, a utilização incorreta da voz na fala pode causar
alterações orgânicas nas pregas vocais, tais como: nódulos (calos), edemas, pólipos,
etc. Essas alterações são detectadas através do exame com um otorrinolaringologista. O
caso de cada indivíduo é estudado para ver qual a terapêutica a ser empregada. Muitas
vezes, em casos iniciais, a utilização de técnicas de reeducação fonoaudiológica é
suficiente para a correção. Entretanto, mesmo quando a terapêutica aplicada for a
cirurgia, faz-se necessária a reeducação fonoaudiológica, para evitar que retornem as
alterações provocadas por padrões incorretos de fonação. Os problemas na voz podem
ser evitados com orientação de um fonoaudiólogo e, dependendo do caso, o tratamento
deve ser combinado com psicoterapia.
O Fator Humano e o Fator Legal
(Um caso de cidadania envolvendo surdez-mudez)
Em 1998, conta a Associação Sindical dos Juízes Portugueses, o Ministério Público
de Lisboa moveu uma ação de interdição contra uma mulher de 32 anos, que sofria de
paralisia cerebral com decorrente surdez-mudez, alegando:
"A requerida não anda, necessitando de cadeiras de rodas para esse efeito, e não é
capaz de falar, comunicando-se com as pessoas por gestos ou através de um quadro onde se
encontram inscritas as letras do alfabeto e frases que utiliza com mais freqüência, tais
como: "tenho sede", "tenho fome", etc, no qual a requerida aponta as
letras para compor frases ou as frases já feitas". No entanto, na mesma ação, o MP
português relatou que a referida senhora residia, durante a semana, em um Centro onde
freqüentava o ensino especial e aprendia a ler e a escrever à máquina".
Segundo o Código Civil português, são três as causas de interdição: anomalia
psíquica, surdez-mudez e cegueira.
"Contudo", diz o processo, "não basta a ocorrência de qualquer
deficiência destes tipos para o juiz decretar a interdição da pessoa que dela sofre.
[...] O surdo-mudo, que haja seguido tratamento e instrução adequados, adquirindo, deste
modo, meios de suprir a sua limitação física, pode também não ser passível de
interdição, ou sê-lo apenas de inabilitação".
Mesmo assim, foi concluída a ação e nomeado um tutor, tendo o MP baseado a ação em
"anomalia psíquica". A mulher recorreu, então, pedindo a ajuda de um advogado
público, e o caso chegou em um ponto que lhe foi solicitado comparecer para exames, sendo
feito a ela um interrogatório, que resultou no seguinte:
A mulher, por não se expressar pela fala, utilizou para as respostas um quadro onde se
encontravam escritas algumas palavras ou expressões simples, o abecedário, os números
de 1 a 10, as cores, as operações matemáticas, etc. Ela também conseguiu comunicar o
seu nome, onde nasceu e onde morava, o mês em que se encontrava, tudo de forma certa,
comunicando que aquele era seu 12º ano de escolaridade, sabendo ler e escrevendo à
máquina e a computador, tendo esclarecido que gostava de continuar a estudar.
Foram exibidas à mulher várias moedas, que a mesma reconheceu e cujo valor indicou no
seu quadro. Ao serem expostos a ela os motivos do processo, ela conseguiu comunicar uma
mensagem, dizendo não querer ser declarada interditada porque depois não poderia estudar
nem fazer nada, e esclareceu ainda, por meio de gestos e outros sinais, que pretendia
poder decidir sempre a sua vida.
Meses depois, a juíza Margarida Leitão, do 7º Juízo Cível de Lisboa, julgou
improcedente a ação movida contra a mulher portadora, entre outras coisas, de
surdez-mudez e indeferiu o pedido de interdição.
Curiosidades:
1. Embora timidamente, começam a surgir alguns sinais de maior integração entre a
comunidade e os deficientes auditivos e de fala, onde estes últimos têm inclusive a
oportunidade de fazer o papel de mestre para aqueles que, um dia, vão estar cuidando de
sua saúde.
2. Recentemente, o curso de medicina da Unicamp foi o vencedor do concurso de melhor Trote
da Cidadania. O projeto do curso de medicina da Unicamp foi realizado por calouros e
veteranos, entre outros locais, no Círculo de Amigos dos Deficientes Auditivos e da Fala
(Cadaf), onde fizeram um "pedágio" com distribuição de adesivos com as
inscrições "Uso branco pela paz". Segundo Ana Carolina M. Machado, do 3º ano
de medicina, no Cadaf, foram os calouros que aprenderam com os deficientes, que lhes
ensinaram tudo sobre a linguagem de sinais e alfabeto surdo-mudo.
3. É preciso que a população aprenda sobre os deficientes auditivos e de fala, pelo
menos o suficiente para acreditar que eles vão muito além do que as pessoas possam
imaginar em matéria de potencialidade, capacidade criativa e de trabalho, como qualquer
outro indivíduo. Deficiência física não significa deficiência mental.
4. Por exemplo, Francisco Goulão, surdo-mudo, é ele próprio um professor de surdos há
mais de 22 anos. Licenciado pela Universidade de Lisboa, professor no Instituto António
Cândido-Porto, em Portugal, um estabelecimento escolar, estatal e especializado na área
da surdez. O professor Goulão é um estudioso e crítico da LGP, Língua Gestual
Portuguesa, e luta pela questão do bilingüismo para surdos, participando de
conferências em outros países e escrevendo artigos em jornais e revistas.
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21 de setembro de
2000
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