|
Neste Artigo:
- A Mística Prática do Jejum
- O Que Ocorre
Com o Organismo Durante o Jejum Prolongado?
-
Transtornos Alimentares: Doenças da Ditadura do Corpo Ideal
- Veja Outros Artigos
Relacionados ao Tema
"A grande maioria dos casos de transtornos alimentares, como bulimia e
anorexia nervosa, são desencadeados por dietas. A pessoa passa a ter episódios
de descontrole alimentar. Depois de um tempo em jejum, passa a comer
compulsivamente. Também podem ocorrer sintomas depressivos. Nos casos de
anorexia, a pessoa se recusa a comer por medo desproporcional de ganhar peso.
Cerca de 20% dessas pessoas morrem e 40% não conseguem se recuperar".
A Mística Prática do Jejum
Durante o Ramadã, o nono mês do ano no calendário muçulmano, os
fiéis realizam jejum diariamente entre o alvorecer e o pôr-do-sol. O Yom Kipur
(dia do perdão) na tradição judaica, representa o dia em que Deus julga os
pecados de cada um e dá sua sentença. É também o dia em que os judeus
praticam o jejum. Católicos e evangélicos também utilizam a prática para
manifestar sua fé. A partir destas práticas, surge um mito de que o jejum
concretamente purifica o organismo.
Apesar dos profissionais de saúde concordarem que a liberdade de culto
religioso deve ser mantida e a simbologia litúrgica respeitada, o jejum não é
recomendado na rotina diária. Segundo Dr. Adriano Segal, coordenador do
ambulatório de obesidade do Ambulim (Ambulatório de Bulimia e Transtornos
Alimentares) do Hospital das Clínicas em São Paulo, o erro está em
transformar uma manifestação simbólica em uma indicação de melhora de
saúde. "Isto não procede: jejum não purifica o organismo. Para algumas
pessoas (por exemplo, diabéticas, muito idosas, com alguma debilitação
física importante, que usam medicação com horários fixos), chega-se a
contra-indicar estas práticas, mesmo no contexto religioso, devido a riscos
importantes que acarreta para a saúde", explica o médico.
Para ele, quando há a necessidade de jejum, a orientação é feita de uma
maneira individualizada e de acordo com a situação específica. "O jejum
não traz vantagens para o organismo e, de fato, sua realização de rotina deve
ser evitada, a não ser em casos específicos (como realização de cirurgia que
necessite de certos tipos de anestesia, coleta de exames, rituais religiosos e
outros)", completa Segal.
O Que Ocorre
Com o Organismo Durante o Jejum Prolongado?
Aos poucos, as reservas de glicose do organismo vão se esgotando e
outras fontes de energia, como proteínas e gordura, passam a ser utilizadas
para que o organismo se mantenha vivo. Quanto mais longo for o jejum, mais
gordura e proteínas vão sendo consumidas. "O humor se altera (a pessoa
passa a ficar mais irritável), o hálito fica ruim, a pessoa pode ter crises de
hipoglicemia (que podem ser graves), a taxa metabólica diminui, entre outras
alterações", explica Sílvia Franciscato Cozzolino, professora de nutrição humana da Faculdade de Ciências Biomédicas da USP.
Dentro de um longo período, uma alteração grave pode ser a chamada
hipoglicemia rebote, ou seja, a pessoa pára de produzir insulina, pela não
ingestão de carboidratos. Quando o jejum é interrompido, há uma elevada
secreção de insulina, às vezes maior do que a necessária, levando à
hipoglicemia. "Quanto mais tempo o indivíduo fica sem comer, mais se
acostuma à privação. Depois de um jejum prolongado, não é possível, da
noite para o dia, voltar a comer na mesma quantidade de antes. É preciso ter
uma readaptação paulatina", conclui Sílvia.
Mas até que ponto o organismo agüenta ficar em jejum? "Em média, podemos
dizer que um paciente agüenta ficar sem comer por 60 dias", afirma Adriano
Segal. "Teoricamente, uma pessoa de 70 kg tem subsídios energéticos para
agüentar um jejum por 90 dias. Mas ninguém chega a esse ponto, porque
acontecem outros problemas antes disso", explica o especialista.
Esses problemas são principalmente as infecções. Inicialmente, o organismo
tira do fígado a glicose. O órgão armazena o glicogênio, que é uma espécie
de reserva de glicose, que dura para um jejum de 12 horas. O organismo também
tira energia da gordura do tecido adiposo, o que posteriormente pode provocar
formação de substâncias tóxicas para o organismo, e do tecido muscular.
Porém, com todos esses mecanismos, cai a resistência do paciente, que fica
mais sujeito a infecções. "Com o corpo debilitado e um quadro de
infecção, a pessoa pode morrer. O paciente, após um jejum prolongado, pode
vir a ter problemas no pulmão ou no sistema nervoso, por exemplo", explica
Segal.
Em pessoas com anorexia nervosa e outros transtornos alimentares, quadros
depressivos e ansiosos estão diretamente associados à prática do jejum. Uma
das alterações que ocorrem em pessoas predispostas a estas doenças é a
realização de refeições desproporcionalmente grandes, com a sensação de
perda de controle sobre o quanto e o que se come (os chamados episódios de
comer compulsivo). Assim, para pacientes obesos, jejuns de mais de 4 horas são
contra-indicados, a não ser, em situações específicas.
Transtornos
Alimentares: Doenças da Ditadura do Corpo Ideal
A anorexia nervosa é, sem dúvida, o mal das mulheres do final do século
20. Os homens são apenas 5% dos pacientes. São tantas as mulheres que sofrem
da doença, que os ambulatórios do Hospital das Clínicas e do Hospital São
Paulo estão sempre lotados, recusando pacientes. Não há estatísticas
precisas, mas sabe-se que cerca de 20% das anoréxicas morrem. "A doença
pode começar de uma hora para outra. A pessoa acha que está gorda e começa a
fazer regime. No começo, ela tem apetite, mas se força para não comer. Depois
de algum tempo de jejum, não sente mais fome e recusa qualquer
alimentação", diz o psiquiatra Táki Cordás, coordenador-geral do
Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas.
A inocente dieta inicial vai se tornando, aos poucos, idéia fixa. A mulher
perde peso rapidamente, mas não se contenta. Olha-se no espelho e encontra
culotes e celulites invisíveis aos outros. Recusa também conselhos de parentes
e amigos e, apesar de magra, mantém uma hiperatividade.
Depois de alguns meses, ultrapassa a chamada "barreira da fome": quando o estoque de energia começa a baixar, sentimos fome, ficamos agitados,
ansiosos por comida. A anoréxica suporta essa fome e desencadeia um processo
interno. O corpo começa então a "economizar" tudo, diminuindo o
gasto de energia: produz menos calor (sente frio o dia todo); queima gordura em
grande quantidade, produzindo muita cetona (o hálito fica ruim) e a
menstruação começa a falhar (ausência de pelo menos três ciclos
consecutivos). A fraqueza aparece: há cãibras nas pernas, sudoreses, apatia, o
cabelo cai e as unhas tornam-se quebradiças. Em geral, quando chega a esse
ponto, a anoréxica precisa ser internada para receber alimentação parental e
evitar a morte. "Em 90% das vezes, é a família quem interna. Os parentes
percebem algo errado e não agüentam mais as brigas. A pessoa muda
completamente de personalidade", afirma o psiquiatra.
O tratamento da doença pode ser tão sofrido quanto o de um dependente de
drogas. Na anorexia nervosa, o nível de beta-endorfina, substância que provoca
bem-estar, aumenta, podendo subir até 50 vezes acima do normal. "Quando
você começa a alimentar uma pessoa que está anoréxica há muito tempo, esse
nível de endorfina cai, e ela perde a sensação de bem-estar, sente muita
angústia. É como se ela fosse viciada na própria endorfina que o corpo
produziu", diz Freddy Eliaschewitz, chefe do Departamento de Endocrinologia
do Hospital Heliópolis. Além disso, há o pânico de engordar. "É muito
difícil fazer a paciente aceitar comida no início. Há mulheres que chegam com
27 kg e com medo de engordar", afirma o médico.
Na primeira fase, a paciente precisa ser hidratada, porque a maioria já parou
de beber líquidos com medo de engordar. É difícil tratar a anorexia. As
pacientes, em geral, precisam chegar ao fundo do poço para começar a melhorar.
Isso significa passar bem perto da morte, perder 40% do peso e mal conseguir
ficar de pé. Com o tratamento, a maioria engorda e volta a menstruar, mas
muitas continuam obcecadas com o peso. De acordo com os especialistas, é
difícil haver cura total.
Copyright © 2003 Bibliomed, Inc. 28 de
Julho de 2003.
Artigos relacionados com
esse tema:
A Anorexia Nervosa Deve Ser Tratada Por Equipes Multidisciplinares
Desnutrição Hospitalar: Um Problema Também no Brasil
Magros e Balança: Quando Ser Magro Demais é um Problema
|