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Neste artigo:
- Introdução
- Conseqüências sobre saúde geral
- Causas
- Tratamentos
- Conclusões
- Referências
A obesidade é um problema
cada vez mais comum e seu tratamento representa um desafio para médicos e
pacientes. São muitos os investimentos para compreender as raízes desse complexo
problema, mas os avanços no tratamento da obesidade ainda deixam muito a desejar1.
Introdução
A obesidade nada mais é que o
excesso de tecido adiposo. É fácil detectar e caracterizar a obesidade. Isso é
feito normalmente calculando-se o índice de massa corporal (IMC), que é o
resultado do peso (em quilogramas) dividido pelo quadrado da altura (em metros).
O IMC normal é aquele que tem valores entre 18,4 e 24,9. Valores entre 25 e 29,9
caracterizam indivíduos com sobrepeso e valores acima de 30 são indicadores da
obesidade. Os obesos classe I têm IMC’s que variam de 30 a 34,9. Os de classe II
exibem IMC’s de 35 a 39,9. Acima desse valor fala-se em obesidade de classe III
- ou obesidade extrema (termo menos pejorativo que a expressão “obesidade
mórbida”).
Além do peso, existem outros
fatores importantes na avaliação da obesidade. A distribuição de gordura
corporal é um deles. Estudos mostram que o excesso de gordura ao redor da
cintura e dos flancos (a chamada obesidade “em maçã”) correlaciona-se com mais
riscos à saúde que a presença de tecido adiposo nas coxas e nádegas (obesidade
“em pêra”).
Acredita-se que pelo menos 60%
dos homens e 50% das mulheres norte-americanas estão acima do peso adequado. Os
negros – particularmente as mulheres negras – estão mais expostos ao risco de
obesidade. A pobreza também é um fator de risco associado à obsedidade2.
Conseqüências sobre a saúde
geral
Muitas doenças incidem
preferencialmente sobre obesos. Entre elas, destacam-se a hipertensão arterial,
o diabete melito do tipo 2, as dislipidemias, a doença arterial coronariana, as
doenças degenerativas das articulações e problemas psicológicos. Certos cânceres
são mais prevalentes em pacientes obesos (é o caso dos cânceres de cólon, reto e
próstata em homens e dos cânceres de útero, trato biliar, mamas e ovários em
mulheres). Trombo-embolismos, doenças do trato digestivo e da pele também são
mais comuns entre obesos. Neles, o risco de cirurgias e de problemas com a
gestação e o parto também são maiores. Doenças pulmonares, endócrinas e renais
também costumam castigar mais os pacientes obesos.
Causas
Até pouco tempo, a obesidade era
considerada o resultado de uma vida sedentária associada ao consumo de calorias
em excesso. Embora esse seja um mecanismo que inquestionavelmente leva à
obesidade em grande parte das pessoas, hoje já se sabe que fatores genéticos e
constitucionais podem contribuir para o desenvolvimento da obesidade. Estudos
com gêmeos e crianças adotadas demonstraram estreita relação entre o IMC dos
pais biológicos com o de seus filhos, ao passo que a mesma relação não pôde ser
atribuída a fatores ambientais.
Em camundongos, já foram
identificados genes responsáveis pelo controle do apetite1. Mutações
nesses genes, em humanos, podem ser responsáveis pela obesidade de muitas
pessoas. Um desses genes codifica uma proteína – a leptina - que possui
receptores nas células cerebrais e provavelmente atua regulando a vontade de
comer3.
A maioria dos casos de obesidade
em humanos provavelmente decorre de uma interação entre o arcabouço genético,
fatores ambientais e o comportamento.
Menos de 1% dos obesos exibem
algum problema de saúde que possa justificar a obesidade. Hipotireoidismo e
síndrome de Cushing são exemplos importantes de causas de ganho de peso. Pessoas
com esses problemas devem buscar a ajuda de um endocrinologista.
Todos os indivíduos obesos devem
ser avaliados quanto a possíveis conseqüências da obesidade sobre sua saúde
geral. Medidas da pressão arterial, da glicemia de jejum, do colesterol e dos
triglicérides são importantes para isso.
Tratamentos
Infelizmente, mesmo com as
técnicas mais avançadas, a obesidade ainda é um problema difícil de ser tratado.
Os pacientes mais motivados a perderem peso são aqueles com maiores chances de
sucesso em regimes voltados para o controle da obesidade.
Os programas para perda de peso
mais bem sucedidos que se conhece empregam equipes de cuidados
multidisciplinares e se baseiam em dietas com poucas calorias, modificações nos
hábitos alimentares e prática de exercícios aeróbicos. Suporte psico-social é
fundamental para todas as pessoas. Deve ser dada ênfase à necessidade de manter
a perda de peso a fim de evitar que se volte a engordar (situação que tende a se
tornar cíclica e levar ao chamado “efeito sanfona”).
Um obeso deve, a princípio,
comer exatamente as mesmas coisas que qualquer pessoa com uma vida saudável deve
ingerir: dietas pobres em gorduras e ricas em fibras e carboidratos complexos.
Isso pode ser obtido através do consumo da maior proporção possível de alimentos
não processados (in natura). Alimentos que fornecem muita caloria e não
possuem valor nutricional (álcool, sacarose e gordura) devem ser restringidos.
É importante salientar que
nenhum estudo foi capaz de demonstrar qualquer vantagem decorrente da adesão de
pacientes obesos a dietas com restrição de carboidratos, muitas proteínas e
gorduras, ou da ingestão de diferentes grupos nutricionais a cada refeição.
Apenas mudanças permanentes no
hábitos alimentares são capazes de manter a perda de peso obtida com dietas.
Muitos programas voltados para modificação do comportamento e para aquisição de
hábitos de vida saudáveis estão hoje disponíveis. O contato direto com o médico
é, entretanto, peça chave para um tratamento bem sucedido contra a obesidade.
Exercícios
O exercício físico oferece uma
série de vantagens para pessoas que tentam perder peso manter o peso dentro de
limites individualmente estipulados4. Os exercícios aeróbicos
aumentam o gasto calórico total do indivíduo e são especialmente importantes
para manter o peso adequado por longos períodos de tempo. Eles também ajudam a
preservar a massa magra, o que por si só contribui para o aumento do gasto
calórico total. Os exercícios também ajudam a melhorar o perfil glicêmico,
lipídico e cardiovascular de indivíduos obesos.
Suporte psíquico
Suporte psico-social é
fundamental para assegurar um programa de perda de peso bem sucedido. O contato
íntimo e duradouro com a equipe médica e o envolvimento de familiares e amigos
pode auxiliar a adesão a mudanças comportamentais e evitar o isolamento social.
Dietas restritivas
Pacientes muito obesos podem
requerer cuidados mais agressivos. Dietas com baixíssimo teor calórico (menos de
800 kcal/dia) resultam em rápida perda de peso e melhora importante das
complicações metabólicas associadas à obesidade. Pessoas mantidas nesses
programas costumam perder cerca de 1kg a 2Kg por semana, por até 6 meses. Embora
a perda de peso possa ser obtida mais rapidamente com dietas muito restritivas,
o resultado desses regimes a longo prazo é equivalente ao obtido com dietas
tradicionais.
Medicamentos
Há considerável controvérsia
acerca do emprego de terapias farmacológicas para o tratamento da obesidade.
Muitas pessoas já chegam ao consultório médico em uso de medicações que não
foram prescritas corretamente. A prescrição irresponsável de inibidores de
apetite, diuréticos e laxativos não é incomum.
Os protocolos publicados em 1998
pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA reservam o uso de medicamentos
contra a obesidade para pacientes com IMC > 30 e para pacientes com IMC > 27 e
fatores de risco associados. Ainda assim, as medicações são apenas parte de uma
estratégia abrangente de cuidados para pacientes obesos. A partir de 1997,
depois da retirada do mercado norte-americano de duas drogas amplamente
empregadas no combate à obesidade, o uso de tratamento farmacológico contra
obesidade tem diminuído significativamente nos EUA.
Duas drogas recentemente
disponíveis têm se mostrado útil no tratamento de pacientes obesos: a
sibutramina e o orlistat. A sibutramina bloqueia a recaptação de serotonina e
adrenalina no sistema nervoso central. Ela leva a perdas de peso 3Kg a 5Kg
maiores que o placebo, em estudos com duração de 6 meses a um ano. Seus
principais efeitos colaterais são boca seca, anorexia, constipação, insônia e
tonturas.
O orlistat atua no sistema
digestivo inibindo a atividade da lipase intestinal e por conseqüência
diminuindo a absorção de gorduras. Como é de se esperar, sua ação pode resultar
em diarréia, flatulência e cólicas. O orlistat também traz risco de deficiência
de vitaminas. Estudos mostram que o orlistat é capaz de induzir perdas de peso
em 2 anos que são de 2kg a 4Kg maiores que o placebo5.
A despeito dessas duas drogas
terem sido aprovadas pelo FDA e da perda ponderal comprovadamente atribuível às
mesmas, não há indícios de que o tratamento com essas drogas traga qualquer
benefício a longo prazo para os pacientes.
Cirurgia
A cirurgia bariátrica deveria
estar reservada como um último recurso para tratamento de pacientes extremamente
obesos, mas um número cada vez maior de indivíduos vem se submetendo ao
procedimento. Alguns centros têm obtido bons resultados com a técnica, que já
pode ser feita por via laparoscópica. As perdas ponderais obtidas com a cirurgia
bariátrica chegam a 50% do peso inicial. As complicações, que não são poucas,
costumam acometer mais da metade dos pacientes operados.
Conclusões
A dificuldade de tratar a
obesidade não deve desanimar quem se vê diante de tal problema. Apesar de serem
muitos os recursos hoje disponíveis para o tratamento da obesidade, a maioria
deles encontra grandes limitações ao seu emprego. Medicações e dietas
restritivas não mostram vantagem a longo prazo sobre a aquisição e manutenção de
hábitos de vida saudáveis. A cirurgia bariátrica, embora exiba resultados
notáveis, ainda se associa a grande freqüência de conseqüências adversas. O foco
do tratamento de todo indivíduo obeso deve ser a mudança dos hábitos dietéticos
e a aquisição de hábitos saudáveis de vida.
Referências:
1. Baron B R: Nutrition. Current Medical Diagnosis and
Treatment 2003 Chapter 29, pages 1212 to 1244.
2. Mokdad A H et al: The continuing epidemics of obesity and diabetes in
the United States. Journal of the American Medical Association
2001;286:1195.
3. Mantzoros C S: The role of leptinin human obesity and disease: a review
of current evidence. Annals of Internal Meidicine 1999;130:671.
4. Wei M et al: Relationship between low cardiorespiratory fitness and
mortality in normal weight, overweight, and obese men. Journal of the
American Medical Association 1999;282:1547.
5. Rossner S et al: Weight loss, weight maintenance, and improved
cardiovascular risk factors after 2 years treatmento with orlistat for obesity.
European Orlistat Study Group. Obesity Research 2000;8:49.
Copyright © 2006 Bibliomed,
Inc. 26 de janeiro de 2006.
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