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Nesta Reportagem:
- Dados da Dependência do Tabaco
- Malefícios do Fumo
- Conceito de Dependência
- Métodos Para Parar de Fumar
- Fatores que Interferem
na Tentativa de Abandonar o Cigarro
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Tema
"Parar de fumar é talvez uma das missões mais difíceis que alguém pode ter
que enfrentar. Segundo especialistas, a dificuldade mais séria não está na dependência
química, como poderiam supor muitos fumantes, mas na relação de prazer compensatório
que o cigarro assume em suas vidas. Superar isso é tarefa que deve contar com a ajuda
psicológica, além de lançar mão dos artifícios químicos que substituem o tabaco,
como as gomas de mascar e os adesivos".
Dados da Dependência do Tabaco
Grande parte dos que fumam (80 por cento) desejam parar de fumar, mas não
conseguem. Eles usam a droga em quantidades maiores ou por um tempo maior do que
desejariam, e mantém o seu uso apesar de conhecerem os danos físicos e psicológicos que
advém dela. Embora a maioria dos fumantes já tenha enfrentado algum problema físico em
função do cigarro, dar um basta neste hábito é das tarefas mais difíceis que um ser
humano pode enfrentar, o que demonstra que as manifestações da dependência da nicotina
são muito semelhantes a de outras drogas, com a diferença de não produzir
manifestações psíquicas com o seu uso. Ainda que fumar não torne a pessoa mais
agressiva ou eufórica, o seu padrão de consumo é típico de uma droga que produz
dependência.
De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), morrem atualmente três
milhões de pessoas por ano em função do cigarro. Se a tendência continuar a mesma, em
2020 este número saltará para dez milhões de mortes anuais. Ainda segundo a OMS,
estima-se que nas próximas décadas 500 milhões de pessoas morrerão por causa desse
vício. No Brasil, sempre pobre em estatísticas, é difícil avaliar o custo social do
tabagismo, mas sabemos que 35% dos homens são fumantes.
Apesar das inúmeras campanhas antifumo e das crescentes restrições à propaganda da
indústria do tabaco, o número de novos fumantes segue crescendo: no Brasil, uma pesquisa
realizada pelo IBGE em 1989 acusou a existência de 30 milhões de fumantes maiores de 5
anos, correspondentes, na época, a 24% da população.
Nos Estados Unidos existem hoje cerca de 50 milhões de fumantes. Uma projeção para os
dias de hoje indica a existência de 36 milhões de usuários de tabaco no Brasil. Ainda
segundo o IBGE, destes 30 milhões em 1989, cerca de 60 por cento eram homens, sendo que a
proporção de fumantes na zona rural era superior à da zona urbana. O consumo, revela o
IBGE, é maior entre os indivíduos de 30 a 49 anos, em ambos os sexos, e reduz-se aos 50
anos. Entre os homens, o consumo médio varia de 11 a 20 cigarros por dia, ao passo que,
entre as mulheres, fica entre 5 e 10 cigarros diários.
Estes dados, levantados pelos psiquiatras Ronaldo Laranjeira, coordenador do UNIAD
(Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas), Maria Tereza Cruz Lourenço, diretora do
Departamento de Psiquiatria e Psicologia do Hospital do Câncer A . C. Camargo e também
coordenadora do Grupo de Apoio ao Tabagista (GAT) e Helena B. Samaia, pós-graduanda do
Departamento de Psiquiatria da EPM - UNIFESP, e publicados em um artigo na web, são
bastante significativos da vontade de muitos fumantes de parar de fumar. No entanto,
segundo os especialistas, a informação ainda é o primeiro passo para a decisão
definitiva que só o fumante pode tomar. Para isso, vamos explicar aqui alguns conceitos
básicos a respeito da dependência do tabaco e seus malefícios, embasando esta decisão.
Malefícios do Fumo
De acordo com o SBC-FUNCOR (Sociedade Brasileira de Cardiologia e Fundação do
Coração), os malefícios do fumo ultrapassam a ação da nicotina e dizem respeito a
diversas substâncias tóxicas resultantes da combustão do tabaco. O SBC identifica 43
destas substâncias como cancerígenas. Relaciona-se ao tabagismo 90 por cento dos casos
de câncer do pulmão, 80 por cento dos casos de bronquite crônica e entre 20 e 25 por
cento das anginas ou infartos do miocárdio. Fumar também está relacionado com a
ocorrência do câncer de boca e do esôfago e é possível que favoreça o
desenvolvimento de câncer no pâncreas, bexiga, rim e estômago. Além disso, os filhos
de mães fumantes mostram retardo no crescimento intra-uterino e baixo peso ao nascimento.
A SBC não pára por aí ao listar os prejuízos à saúde causados pelo cigarro. De
acordo com a instituição, fumar também prejudica a circulação sangüínea e acaba
propiciando os acidentes vasculares cerebrais, mais conhecidos como 'derrames'. Em alguns
casos, o 'entupimento' dos vasos que irrigam as pernas pode levar à gangrena, não
restando alternativa à amputação.
A especialidade da SBC, no entanto, é, como se pode imaginar, o coração. Este órgão
vital é especialmente prejudicado pelo hábito de fumar. "A nicotina torna-se
prejudicial ao aparelho cardiovascular à medida que propicia a liberação de
substâncias - as catecolaminas - que habitualmente só seriam liberadas no organismo em
ocasiões de estresse. Essas substâncias preparam o corpo para enfrentar situações de
perigo iminente. Como conseqüência, aumentam a freqüência cardíaca, a pressão
arterial (e, portanto, a necessidade de oxigênio) e a resistência que os vasos opõem à
passagem do sangue", afirma a entidade em um artigo a respeito. No caso dos
cardíacos, todos estes efeitos são multiplicados, alerta ainda a SBC.
"Os malefícios do fumo sobre o coração e os vasos devem-se não somente à
nicotina, mas também ao monóxido de carbono resultante da queima do papel e do próprio
fumo", alerta a Sociedade Brasileira de Cardiologia, que explica que a combinação
do monóxido de carbono com a hemoglobina - pigmento protéico das hemácias com função
de transportar o oxigênio - forma a carboxihemoglobina, uma ligação 250 vezes mais
forte do que a do oxigênio com a hemoglobina.
"Assim, o conteúdo de oxigênio dos glóbulos vermelhos dos fumantes se reduz em 15
a 20%, comprometendo o seu fornecimento aos órgãos", explica. De acordo com a
instituição, este déficit de oxigênio, sempre prejudicial, torna-se ainda mais sério
em virtude do aumento da demanda provocado pela nicotina. "Como se já não fosse
dano bastante, o monóxido de carbono tem ação tóxica, agredindo a parede interior das
artérias, cria uma lesão, na qual irá se depositar a gordura que circula no
sangue", acrescenta. Para completar, "o fumo ainda tem a propriedade de aumentar
o fracionamento das gorduras no interior dos vasos, aumentando, assim, a concentração de
LDL, o colesterol 'mau', e reduzindo a de HDL, o colesterol 'bom'". Por tudo isso,
estima-se que o fumante perca, em média, dez anos de vida.
De acordo com a cardiologista Jaqueline Issa do Instituto do Coração (Incor), em São
Paulo, as principais armas do Ambulatório de Tabagismo da Instituição são a
informação e amostras grátis de medicamentos livres de prescrição médica, como gomas
de mascar e adesivos de nicotina utilizados como terapia auxiliar nos tratamentos contra o
cigarro. "Esses mecanismos funcionam como uma anestesia quando se tira dente. Eles
diminuem os transtornos, mas só cumprem sua função se foram utilizados da maneira
correta", explica a médica.
Conceitos de Dependência
Ser dependente de uma substância significa, basicamente, não ter mais controle do seu
uso, apresentando sintomas tais como tolerância (necessidade de quantidades cada vez
maiores da droga para se obter os mesmos efeitos) e síndrome de abstinência (menor
concentração e atenção, ansiedade, vontade de fumar: respostas do corpo para a
ausência da nicotina, levando o fumante a repô-la em períodos cada vez mais curtos). Na
atualidade, já não se intitula uma pessoa como dependente ou não-dependente, mas como
mais ou menos dependente, ou seja, a dependência é relativa à intensidade destes
sintomas.
De acordo com os psiquiatras antes citados, muitos fumantes que tentam parar de fumar
sozinhos não alcançam o seu intento por apresentar os sintomas de abstinência e não
saber reconhece-los como tais. Na realidade, explicam os especialistas liderados pelo Dr.
Laranjeira, não são todos os fumantes que apresentam sintomas de abstinência, mas
pode-se afirmar que cerca de 70 por cento deles apresenta algum desconforto relacionado
com a ausência do cigarro. Eles explicam que os sintomas normalmente aparecem horas
depois do último cigarro fumado e podem se estender por um período que pode variar de
até dois meses.
Os sintomas da abstinência são relatados como ansiedade, inquietude, irritação,
agressividade, depressão, baixa concentração e atenção e aumento do apetite.
"Pode-se observar alterações do EEG (Eletroencefalograma), diminuição dos
batimentos cardíacos e PA (Pressão Arterial), vasodilatação periférica, alterações
do sono, aumento do peso e diminuição da performance em provas de vigilância e
memória. O sintoma mais típico é o 'craving', ou seja, uma vontade de fumar intensa e
inexplicável", explicam os especialistas.
Métodos Para Parar de Fumar
Reposição da Nicotina
Método que tem como objetivo a reposição da nicotina para minorar os sintomas de
abstinência. Estudos mostram que a reposição da nicotina dobra os índices de sucesso,
caso haja um aconselhamento simultâneo do médico. O grupo que mais se beneficia da
terapia de reposição é o dos fumantes pesados, que fumam mais de quinze cigarros por
dia; fumam até uma hora depois de acordar; e que já apresentaram sintomas de síndrome
de abstinência em outras tentativas de deixar o fumo.
A reposição pode ser feita por meio de um adesivo ou de goma de mascar. O primeiro
método permite a absorção da nicotina pela pele e o segundo, pela boca. Os resultados
relatados têm se revelado promissores, embora sejam necessários estudos adicionais, a
longo prazo, para estabelecer sua real eficácia e utilidade da substituição do fumo por
nicotina.
Parada Abrupta
Deixa-se de fumar de uma vez só, abandonando totalmente o uso de cigarros de uma hora
para outra.
Parada Gradual
Possui duas formas para se abandonar o cigarro de maneira gradual:
1) a primeira é a redução do número de cigarros. Por exemplo: um fumante de 30
cigarros por dia, no primeiro dia fuma os 30 cigarros usuais, no segundo dia fuma 25 e vai
tirando cinco cigarros por dia, até chegar ao sétimo dia, já sem fumo.
2) a segunda modalidade é o adiamento da hora do primeiro cigarro. Por exemplo: no
primeiro dia começa a fumar às 9 horas, no segundo às 11 e assim por diante, até o
sétimo dia, quando o primeiro cigarro seria fumado à noite. Desta forma, seria mais
fácil abandonar no sétimo dia.
Especialistas sugerem algumas dicas para facilitar o processo. Inicialmente, informam que
se deve acreditar no método e também que a "vontade de fumar" é algo
superável. Posteriormente, indicam que se beba bastante água, que se use gomas de mascar
e balas, que se realize exercícios e caminhadas, que se evite bebidas alcoólicas, que se
escove os dentes logo após as refeições, etc.
Outros métodos, como acupuntura (método do ponto cirúrgico), uso de medicamentos (kits
de antioxidantes) e controle mental, como o Método M.A.M.C. - Método por autocontrole
mental sobre o cigarro, que vende uma apostila através da Internet, também vem sendo
amplamente divulgados. Qualquer que seja o método utilizado, no entanto, é recomendável
que seja feito com acompanhamento médico.
Fatores que Interferem
na Tentativa de Abandonar o Cigarro
De acordo com o psicólogo e psicanalista Fernando Falabella Tavares de Lima,
diretor clínico do Netpsi - Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia e especialista em
drogas, deixar o cigarro pode ser mais difícil em função das motivações psicológicas
que mantém o uso do que em função do aspecto biológico. "Do ponto de vista
orgânico, há diversos métodos de reposição de nicotina, o quê diminui a dificuldade
dos efeitos da abstinência. A dependência psicológica de uma droga, e deve-se
esclarecer que a nicotina é uma droga psicotrópica estimulante do sistema nervoso
central, está relacionada com o hábito e com as atitudes de preparo e uso das
substâncias. Há um significado psíquico para o uso do cigarro", afirma.
Na opinião do especialista, para se deixar o fumo, inicialmente deve-se vencer o período
de síndrome de abstinência. Para isso, podem ser utilizados diversos métodos, como os
adesivos de nicotina, as gomas de mascar, etc, que ele acha válidos, embora insista que a
grande dificuldade de deixar o fumo não está na questão orgânica. "O difícil é
deixar o hábito e os seus componentes estruturantes psicológicos do uso. Sendo assim,
considero bastante válido que se seja utilizado um método para diminuir os efeitos
orgânicos da falta da nicotina, contudo é imprescindível que haja um apoio
psicológico". Este apoio pode ser obtido, segundo Fernando, tanto em uma
psicoterapia como em grupos de auto-ajuda.
Já a psicanálise, especialidade do psicólogo, é um método de compreensão e
tratamento das causas psíquicas inconscientes que motivaram e que mantém a necessidade
do uso da droga. "Pode-se dizer que, de maneira geral, o cigarro é para a pessoa que
o usa como um 'remédio', muitas vezes utilizado para diminuir a ansiedade e este fato é
paradoxal, na medida que a nicotina é uma droga estimulante, logo, deveria gerar
ansiedade. Cito isso para defender a tese de que o mais importante no tratamento de uma
dependência do tabaco são os componentes emocionais e não o aspecto biológico",
reafirma.
Esta convicção de que a dependência do cigarro é mais forte do ponto de vista
emocional e psicológico resulta da observação de exemplos como o de M.T., 40 anos, que
após dois anos livre do cigarro (ela usou os adesivos para parar de fumar durante uma
viagem, quando estava feliz e relaxada), voltou a fumar gradativamente. Atualmente, fuma
seis cigarros por dia e não consegue abrir mão do prazer que o cigarro lhe proporciona,
justificando a volta à dependência em função das muitas 'concessões' que já faz na
vida. "Não vou me privar de mais este prazer, pois já me privo de muita
coisa", diz M.T., que preferiu não se identificar. Fernando explica que
"evidentemente, em um momento da vida em que a pessoa volta a necessitar da 'muleta'
do uso de uma droga, ela volta a obter o prazer proporcionado pelo cigarro. Novamente, é
inegável a importância dos aspectos psíquicos para o retorno ao uso mesmo tantos anos
depois".
Muitos familiares de fumantes fazem verdadeiras 'campanhas' em casa para que estes parem
com o hábito que pode leva-los à morte. A angústia da família, no entanto, tem pouco
resultado sobre o fumante se este não estiver de fato convicto da necessidade de parar.
"Inicialmente, quando pensamos em ajudar alguém, devemos ter clara a necessidade de
respeito à individualidade do outro. Não se pode fazer um tratamento de uso de cigarro
de uma maneira forçada, sem que o fumante o deseje", ensina Fernando.
"Quando se fala do uso de outras drogas, cito o crack, a cocaína, a heroína, por
exemplo, pode-se até pensar na necessidade de retirar a pessoa de um círculo vicioso e
destrutivo. Já o cigarro não torna a pessoa violenta ou confusa psicologicamente, suas
conseqüências são físicas", compara. De acordo com o especialista em drogas, em
geral, os fumantes possuem as informações necessárias para julgar a gravidade das
conseqüências de seu vício. "Embora seja um primeiro passo importante, a
informação, pura e simples, todos sabem, é insuficiente tanto para prevenir quanto para
determinar o término de uma dependência".
Copyright © 2001 eHealth Latin America
04
de Maio de 2001
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